mas que raio é isto dum blog? as pessoas põem-se para aí a falar das vidas delas, do que fazem, do qe queriam fazer, do que fizeram como se isto fosse um confidente e depois até fazemos com que essas descargas liricas quotidianas sejam publicas e toda a gente fique a saber das nossas vidas.
recuso-me a fazer isso. isto serve para falarmos de coisas. coisas essas que não têm de ser intimas e pertenças a nós. tudo bem que eu podia pegar num lapis e escrever isto tudo numa folha de papel, mas apetece-me variar, é essa a minha desculpa. mas só porque me apetece vou encarnar a pessoa que fala da sua vida.
que posso dizer? olha estou cheio do jantar. hoje comi muito, sabem? a começar no emprego: bolo de ananás, de chocolate, de creme d'ovo folhado, pasteis de bacalhau, rebuçados, sumol de laranja que sabia mal. depois despeguei às duas e fui a correr para a cantina. estava fechada já. comi na escola uma sandes de panado e um néctar que me custou os eyes of the face. depois ao entrar na sala das aulas teóricas arrependi.me e dei meia volta e não fui à aula, para ao arrivar a casa comer três taças hiper caloricas de nesquik numa tigela branca ornamentada padronescamente com umas flores amareladas e uma pega onde enfiei o indicador e o do meio (não me lembra do nome) e comi regalado no sofá. a mãe chegou e comi, pouco depois, dois pães com queijo amanteigado, mesmo delicioso, para passados uns tempos comer pescada com tomatada e batata cozida com muito molho e cebolada. fixe hein...?
só depois ao acordar se lembrou que haveria de se recordar que o dia antecipava-se às horas corporais do cansaço ébrio que sentia na planta dos pés e das dores crucificantes que o cérebro fustigava. assim se levantou consciente que seria um dia perdido e que a fé há muito esmurecera no seu adormecido pudor em calçar as meias para não pisar o azuleijo frio que o queimava como se abri-se uma chaga gelada no abdomen e o impulsiona-se de encontro à janela mate e suja que o obrigava a ver com os seus olhos flamejados de temor impróprio de ser humano azuis e pálidos o céu estrelar e efémero balbuciante que não se decide e vive numa complacente vida de intermédios rasgares de humor, ora cálidos ora pez como a tez imberbe dum meridional. vindouros tempos que se anunciam aos antanhos massacres da nossa lânguida e lasciva promiscuosidade memorial. este é o tempo dos tempos. vamos chegar cedo antes que seja tarde de mais.
promessa
promessas
28 março 2008
15 março 2008
O jardim das memórias
"quando saltavamos pelos jardins repletos de arbustos rasteiros e de erva seca com pequenas flores mal cuidadas e dispersas, não nos apercebiamos, na nossa ignorância infantil e despreocupada, que mais tarde estas recordações nos arrasariam mais que qualquer coisa neste mundo.
eramos felizes e arruaceiros,
de mãos dadas e prazenteiros,
corriamos pelo nosso mundo fora, emancipados, e ao voltar separavam-nos e choravamos agarrados um ao outro, como se a nós nos pertencessemos e o resto das pessoas fossem nossos inimigos e rivais.
quando adoeceste tudo mudou. ficavas em casa de convalescença permanente. passava os dias à porta de tua casa, estava proibido de te ver para não mexer com a tua debilidade, e ali ficava e as horas passavam depressa e os dias dissolviam-se sem eu te ver. foste-te embora num dia cinzento. escreveste-me do sanatório uma única vez "para não me preocupar, que tudo ia correr bem, que pensavas em mim e ias melhorar".
não soube de ti durante anos. a tua casa ficou ao abandono, vencida pelas heras e as chuvas. fiz-me rapaz e aos poucos fui esquecendo-te. a vida não me correu bem, mas mal também não correu. fiquei sempre solitário, de poucas aventuras, trabalhei em todo o lado, na terra e no mar, de norte a sul, sem destino nem pousio.
hoje, já velho e intragável penso na nossa infância a toda a hora, como se ela fosse a única coisa que tivesse feito sentido. tu estás longe e muitas vezes tivemos perto um do outro sem sabermos. da tua vida nada soube, mas de certeza que pensas tanto em mim como eu em ti e as memórias deixam-nos abatidos. não mereciamos isso, mas a vida assim o quis e a merda da vida não quis deixar-nos os dois num só. é sempre a vida..."
eramos felizes e arruaceiros,
de mãos dadas e prazenteiros,
corriamos pelo nosso mundo fora, emancipados, e ao voltar separavam-nos e choravamos agarrados um ao outro, como se a nós nos pertencessemos e o resto das pessoas fossem nossos inimigos e rivais.
quando adoeceste tudo mudou. ficavas em casa de convalescença permanente. passava os dias à porta de tua casa, estava proibido de te ver para não mexer com a tua debilidade, e ali ficava e as horas passavam depressa e os dias dissolviam-se sem eu te ver. foste-te embora num dia cinzento. escreveste-me do sanatório uma única vez "para não me preocupar, que tudo ia correr bem, que pensavas em mim e ias melhorar".
não soube de ti durante anos. a tua casa ficou ao abandono, vencida pelas heras e as chuvas. fiz-me rapaz e aos poucos fui esquecendo-te. a vida não me correu bem, mas mal também não correu. fiquei sempre solitário, de poucas aventuras, trabalhei em todo o lado, na terra e no mar, de norte a sul, sem destino nem pousio.
hoje, já velho e intragável penso na nossa infância a toda a hora, como se ela fosse a única coisa que tivesse feito sentido. tu estás longe e muitas vezes tivemos perto um do outro sem sabermos. da tua vida nada soube, mas de certeza que pensas tanto em mim como eu em ti e as memórias deixam-nos abatidos. não mereciamos isso, mas a vida assim o quis e a merda da vida não quis deixar-nos os dois num só. é sempre a vida..."
Adérito Silva, Todos os Contos
12 março 2008
remédio
"amanhã nada serei
indigno do meu vaguear rotineiro
respiro mero fumo
amanhã desaparecerei
ficarei escravo e no momento derradeiro
a bandeja servir-me-à ao mundo"
indigno do meu vaguear rotineiro
respiro mero fumo
amanhã desaparecerei
ficarei escravo e no momento derradeiro
a bandeja servir-me-à ao mundo"
Carlos Peres
só por causa do arroz...
Subscrever:
Mensagens (Atom)