eramos felizes e arruaceiros,
de mãos dadas e prazenteiros,
corriamos pelo nosso mundo fora, emancipados, e ao voltar separavam-nos e choravamos agarrados um ao outro, como se a nós nos pertencessemos e o resto das pessoas fossem nossos inimigos e rivais.
quando adoeceste tudo mudou. ficavas em casa de convalescença permanente. passava os dias à porta de tua casa, estava proibido de te ver para não mexer com a tua debilidade, e ali ficava e as horas passavam depressa e os dias dissolviam-se sem eu te ver. foste-te embora num dia cinzento. escreveste-me do sanatório uma única vez "para não me preocupar, que tudo ia correr bem, que pensavas em mim e ias melhorar".
não soube de ti durante anos. a tua casa ficou ao abandono, vencida pelas heras e as chuvas. fiz-me rapaz e aos poucos fui esquecendo-te. a vida não me correu bem, mas mal também não correu. fiquei sempre solitário, de poucas aventuras, trabalhei em todo o lado, na terra e no mar, de norte a sul, sem destino nem pousio.
hoje, já velho e intragável penso na nossa infância a toda a hora, como se ela fosse a única coisa que tivesse feito sentido. tu estás longe e muitas vezes tivemos perto um do outro sem sabermos. da tua vida nada soube, mas de certeza que pensas tanto em mim como eu em ti e as memórias deixam-nos abatidos. não mereciamos isso, mas a vida assim o quis e a merda da vida não quis deixar-nos os dois num só. é sempre a vida..."
Adérito Silva, Todos os Contos
2 comentários:
era um candeeiro bem alumiado no meio da chuva.
o céu tinha um tom de castanho arroxeado por causa dos reflexos da cidade, ou então porque me pareceu que ficava bonito dizer isso.
mas era esse o tom que tinha.
Oh,que bonito...
Enviar um comentário