11 dezembro 2008

quero ficar no teu corpo feito tatuagem.

"instinto disse ele com um rasgo luzidio nos olhos. repetira a palavra por mais duas vezes até se cansar, decidindo rodar nos pés deixando na terra uma meia lua e ir-se embora numa aura de poeira pestilenta e rosada. para trás ficara, acometida no chão, a última música que partilhou consigo mesmo. já longe sentiu a saudade. depois desacreditou-se da crença que o fustigara todos aquelas décadas. encarou o sol já posto com uma mágoa pesada e seca, conçando o rosto imberbe e rugoso com as mãos encardidas do pouco tempo que ainda lhe restava. um feixe escuro irrompeu sobre o chão abrindo frestas profundas. afogou-se numa delas com o derradeiro pensamento "amanhã será um novo dia".
depois só se ouviu o piu gutural da cruz que se espetou no solo com arrebatador silêncio.
no dia seguinte um sujeito bateu com o pé com estrondo no estrado. a gritaria que se fazia sentir na sala cessou. pegou num cálice e tragou vinto tinto sangrento, sofrego. disse que nunca mais beberia, que não fecharia mais nenhuma porta, que não trovejaria impropérios sempre que se alagasse a colheita, que se preciso fosse fugiria e andaria descalço sempre que o caminho tivesse escolhos salientes, que não bateria mais com o pé quando houvesse demasiado barulho e que tudo mais era conversa fiada... bebeu mais um copo e percebeu que a sala estava vazia e que era ele mesmo quem fazia o barulho todo e que sempre vivera solitário. odiou-se. afinal não era isso que ele quisera ter nas mãos. saiu. pegou num punhado de terra rosa e sentiu os pés enterrarem-se nessa mesma terra. não fez esforço para sair daquele buraco que o consumia. a cova fechou-se como dois lábios calados.
a cruz espetara-se com um estrondo que nos fez a todos saltar (ainda se lembram?).

e vão dois"