"toda a gente passou horas em que andou desencontrado"
olhou para cima em direcção ao candeeiro frio e o feixe luminoso da luz amarela pouco mais deixou vislumbrar para além da sua cor cadavérica. sobreposta à luz luzia negrume nocturno dum céu despido. toda a gente passa horas desencontradas. nem sentiu o trepido movimento ao seu redor dos carros e o incêndio de barulhos habituais da metrópolis. lá ao fundo jazia de pé uma mulher na paragem do autocarro.
mais tarde já em casa com ela ao seu lado, na cama, suspirou fundamente. olhou pela janela e viu a praça com as sombras de quem ainda passava, viu a melancolia tépida das árvores, a conformidade presa aos bancos de madeira pregados ao chão desde sempre, a bonança de espirito esquálido do burburinho do vento a passar na ranhura da janela, a monótona reverberação dos passos surdos de quem não vem. revia-se nisto tudo. o burgo ainda ali estava plantado quando voltou a olhá-lo. lá ao fundo, no rio, um barco rasgava a água rumo à LUZ. acompanhou, com o olhar, a embarcação até se envolver no catre languido. "ninguém me deita a mão, de verdade."
acordou-a.
recomeçou.
"toda a gente passou horas onde andou desencontrado"
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